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(Ensaio) "Ainda não é o fim, nem o princípio do mundo, calma, é apenas um pouco tarde"

 Por Pedro Selas, em Blog


Ainda não é o fim, nem o princípio do mundo, calma, é apenas um pouco tarde (1)

Índice

  1. Ponto Prévio
  2. Depois do início
  3. Pelo meio
  4. Antes do fim

1. Ponto Prévio

Tenho apresentado várias visões à forma como se tem produzido o conhecimento e os regimes sobre ele. 

Todos os dias testo a Ciência, produzida pós-XVIII, e não lhe encontro grande fundamento, senão uma recolocação dos saberes e dos regimes (de verdade) que operam ao longo do tempo.

Numa perspectiva linear da história, esse ao longo do tempo ocorre milenarmente, pelo menos, através da linguagem - “ferramenta pela qual quase tudo se organiza, nem sempre no seu sentido espontâneo, mas também nos seus códigos, como são exemplos as leis, o sistema monetário, os modos de produção e de organização, a ciência e as disciplinas, a discussão política, o funcionamento da tecnologia que nos cerca.” (“Pequenos Ensaios de uma Presidência para um País sem amos”, Pedro Selas, 2024, Ed. Autor)

Parece-me que temos sido aprisionados, em forças aparentemente contraditórias, ao longo do tempo.

Esse aprisionamento incide sobre o nosso ser, sobre as nossas vontades, percepções, sentir, discernir, a partir de técnicas, disciplinas, regimes de conhecimento, através de estruturas dicotómicas, binárias, maniqueistas, de crédito/débito, taxionómicas, categorizações, ritualizações, delimitações, comparações, justaposições, que são impostas através de uma violência de Estado, de Capital - ou qualquer outra corrente hegemónica -, através das suas instituições (indústria militar, farmacêutica, grandes tecnológicas, prisões, manicómios, tribunais, escolas, fronteiras, etc.) e numa estrutura aparentemente indiscutível, no discurso de massas. 

No exemplo dicotómico de governantes/governados, quem são uns? Quem são os outros? Somos algum deles?

Em termos conceptuais, tenho falado numa superestrutura (um pouco como Gramsci enunciava), ou em corrente(s) hegemónica(s), que define(m) a essencialidade das circunstâncias a que estamos sujeitos, mas não absolutamente. Tenho falado, também, que essa superestrutura, hegemónica, cria uma estrutura com as técnicas descritas, que nos são inculcadas desde a nossa estrutura de pensamento à estrutura de estado, capital, sociabilização e sentido de vida (veja-se o exemplo de governantes/governados)

Parece-me que, as estruturas dicotómicas, enquanto regimes, não são a representação/tradução ou mesmo a própria realidade. Se ela é útil em alguma situação, pode ser, de um certo ponto de vista, prejudicial, quando lhe é dada outra atribuição (veremos mais à frente). 

Na verdade, ainda que possamos ver através de uma estrutura dicotómica, ela pode ser complexificada, na verdade, a mesma pessoa, pode ter manifestações de governante e de governado, mais, essa pessoa também terá, talvez na mesma acção, uma infinidade de outras manifestações - podendo ser opressivas ou emancipatórias, ao mesmo tempo, ou outra coisa qualquer, que o serão, sempre, aos olhos de quem os vê. 

Neste exemplo, podemos complexificar com estruturas dicotómicas; no exemplo de  governante/governado, cada um deles, ser bom ou mau, resulta em 4 eixos (governante-bom, governante-mau, governado-bom, governado-mau), mas parece-me que nunca funcionarão como realidade, ou tradução, ou representação da mesma. São regimes e técnicas que absorvemos e reproduzimos.

A ideia que o mal vai sempre existir, ou que só poucos podem ter conforto, parece existir em qualquer comunidade hierárquica, que nos coloca numa luta pela sobrevivência, um certo canibalismo. Uma comunidade planetária, na qual não existe uma ética e uma moral que nos possa atingir todos de uma igual forma, nem uma produção de regras justas, as quais aceitamos e convivemos pacificamente.

Através daquilo que vamos identificando como Estado e/ou Capital, aparentemente opostos, eu prefiro chamar a tudo isso, e outras coisas, correntes hegemónicas ou superestrutura, cada um de nós vai sendo vigiado, sendo o corpo e a alma também controlado/programado.

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2. Depois do início

Durante a maior parte do tempo de vida animal, na perspectiva disciplinar da história e da compreensão linear do tempo, terá sido sem ter sido evocada uma única frase. 

A forma como os animais não humanos - que só aqueles animais que se definem como humanos é que parecem fazer essa exata distinção - viveram sem códigos, sem técnicas e sem disciplinas através da linguagem e não, por isso, deixaram de fazer a sua continuidade, não colocaram em causa o meio e os recursos e, por assim dizer, com essa realidade, chegamos aqui - numa perspectiva linear do tempo, e subjectiva, também, porque sou eu que escrevo estas palavras.

É verdade também que a linguagem não foi só por palavras. Antes das palavras, na perspectiva linear do tempo, várias comunidades compreenderam primeiro os números, e através deles a compreensão dos diferentes ciclos do tempo e da terra, para o cuidado animal, plantas e recursos naturais.

Faz-me questionar se a compreensão de nós (eu) e dos outros (do outro), sobre o nosso meio e sobre a nossa circunstância, é promovida através do mundo como se dispõem hoje em dia. Se através da imposição da violência do Estado, do Capital e das suas Instituições, das fronteiras, da economia, da disciplina e do ensino, do sistema penal, manicomial, da relação com o saber, linguagem e regimes que lhe operam, não condicionam as nossas próprias percepções (individuais e coletivas) do sentir e do ser. 

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3. Pelo meio

Entendo que esse conhecimento que é desenvolvido ao longo do tempo pelos seres deste planeta, que serve como elemento de manutenção/emancipação do ser e da comunidade, é  usado, ao longo do tempo, enquanto elemento de opressão/aprisionamento da superestrutura. 

Vejamos o exemplo, quer pela compreensão linear do tempo, quer pela compreensão dos números ao longo das comunidades.

Através dos números compreendeu-se os diferentes ciclos do tempo e da Terra, para o cuidado animal, plantas e recursos naturais. A partir desse conhecimento ancestral sobre os números, hoje, nas nossas vidas quotidianas, somos inundados pelos números: débito, crédito, o salário, a renda, calendário, preços para tudo, horas, minutos, pontos geográficos, peso, altura, notas, avaliações, numerologia, a programação base da computação (sistema binário), etc. 

Ou seja, como ao longo do tempo se foi refinando o conhecimento, não o tornando menos complexo, e, esse conhecimento emergente, útil para a manutenção, foi sendo usado pela superestrutrura para conservar a diferença de realidades em comum - as tais contradições - que nos aprisiona.

Entendo que esse controlo ao longo do tempo sobre os números, linguagem e regimes que lhe operam, é feito através de correntes hegemónicas, que além de conservar outras coisas, conserva autores que são úteis para justificar o estado atual das coisas, sabem se uns, mas, não se sabem outros, por vezes referências homogéneas, para justificar, num certo sentido, uma constelação. 

Parte da estrutura lógica do pensamento grego e ocidental é também um regime próprio. Muito útil para a programação. Enquanto técnica, o bem e o mal, o débito e o crédito, o regime binário, taxionómico, a delimitação, permitem o uso correto da lógica. Enquanto regime, pode ser uma forma de re-programação animal. 

Ver, por exemplo, como Habermas escreve em “Técnica e Ciência como Ideologia” que “nas sociedades capitalistas industriais avançadas, a dominação tende a perder o seu caráter explorador e opressor e a tornar-se «racional»”, racionalidade essa referente “à correta eleição entre estratégias, à adequada utilização de tecnologias e à pertinente instauração de sistemas” que “subtrai o entrelaçamento social global de interesses”.

A questão da Ciência, da objetividade, da especialização, da imposição da gramática e de um uso linguístico, da conceptualização, do tratamento, enquanto objeto de estudo, de realidades através de uma certa valoração de certas coisas/dados e não de outras - onde existe um móbil subjectivo, a montante, que atribui quais e que valor têm esses critérios tidos como objetivos -, do pensamento como norma e excepção, do pensamento taxionómico  (sobre este tipo de técnicas, até com a visão brasileira do século XVI, ver o livro “Descolonizando Afetos”, de Geni Nunez, 4ª Ed., Paidós, 1ª Parte e  2ª parte, especialmente, no Capítulo “Monogamia é natural porque há espécies animais que são monogâmicas”) - que é útil do ponto de vista legal e produção legislativa, para a manutenção de prisões e de manicómios -, o faz através de uma mão dada entre o estado, ciência, capital, e outras manifestações hegemónicas; e manutenção dessas próprias lógicas de forma mais rarefeitas, difusas, confusas em redes altamente complexas que se auto justificam, a cada tempo, espaço e outras dimensões.

Perceber que falar em correntes hegemónicas é falar no movimento que nos vai aprisionando ao longo do tempo, correntes hegemónicas ou superestrutura, é o movimento que absorve a criação humana para o seu próprio aprisionamento.

Entendo que esse controlo milenar visto numa perspectiva histórica e linear do tempo, ao longo do tempo, nos aprisiona agora, e foi aprisionando cada agora, por assim dizer. 

Há linguagens que não têm expressão para a posse, posse enquanto meu, teu, etc., há outras linguagens cujo verbo é sempre usado da mesma forma (digamos, no nosso infinitivo). É verdade também que existe conhecimento na Física dominante que questiona a linearidade e a universalidade do tempo. Não sabemos bem o ínicio, mas questionando a linearidade do tempo, questiona-se, até aqui, a própria matéria, que é que nós somos efectivamente o que podemos sentir, a que podemos aceder, como viver com dignidade animal.

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4. Antes do fim

Sugiro uma abordagem transdisciplinar para trazer o que têm de comum realidades que nos são apresentadas como distintas, que através da significação (inter)subjectiva talvez possamos ter uma maior aceitação de nós e do outro. E perceber, talvez, que ao mesmo tempo que surgem técnicas que nos parecem manter, emancipar, parece também que, a superestrutura, aproveita essas técnicas - para a nossa manutenção ou emancipação - para a nossa opressão. 

Tendo a acreditar que, a maior parte de nós, aqui e ali, patrocina as estruturas vigentes, penso, também, que, a maior parte de nós, não tem opção. Seja porque vestimos roupa (que é má para o ambiente, porque promove exploração infantil), seja porque matamos animais para comer, seja porque o que comemos faz mal ao ambiente, seja porque andamos de carro, de avião, de barco, seja porque nos inserimos numa estrutura a cumprir uma função pré-determinada, ou colocamos outros a cumprir, diminuindo o nosso arbítrio e o do nosso meio, porque avaliamos, porque somos avaliados, enfim.

Não estou a dizer que somos todos opressores. Não estou a dizer que a maior parte de nós não é oprimido. Não estou, também, a dizer que somos ambos. Estou a tentar dizer algo para lá disso.

Penso, mesmo, que este pensamento dicotómico não favorece o esclarecimento, porventura, nós nem o nosso nome próprio somos, ele nos foi atribuído.

Sobre as categorizações, sobre o que é verdadeiro e falso, sobre quem, a quê, quando tem acesso a algo, podem-se fazer as perguntas de quem é que diz o que é o quê, quem pode ou quem não, quem é ou quem não é. É o próprio que se auto-anuncia? Há um reconhecimento de alguém ou de uma comunidade? Quem atribuiu esse atributo, por assim dizer, a essa comunidade, como se foi reconhecendo? Através de quê se reconhecem? Porque é que essa comunidade, ou alguém, pode fazê-lo? Como foi ao longo do tempo?

Não é muito difícil a partir de estruturas altamente simplificadas criar coisas aparentemente complexificadas. Neste momento escrevo sobre um computador, podia ter estado há momentos, numa rede social ou a jogar um jogo, podia ter estado a programar, ou a ver um vídeo, fazer música, ou uma outra coisa qualquer, tudo isso através de uma programação base, de compreensão algorítmica, a partir de 0’s e 1’s, uma vez que só assim o hardware consegue compreender a informação que lhe transmitida. 

Ou seja, imagens, vídeos, música, programas, bases de dados, internet, jogos, parte de uma compreensão entre sistemas informáticos a partir de 0’s e 1’s. Em abono da verdade, é bem possível que o computador, na sua programação base, não consiga ver sequer 0’s e 1’s, quem os vê e quem os representa somos nós, humanos.

Se queremos falar em delimitações conceptuais, categorizações, para atributos pessoais, ou animais, ou de qualquer outro ser ou recurso, também temos um qualquer chatbot que o faz. 

Neste artigo não tentei ser objectivo, nem rigoroso, tentei, com a força que tenho, colocar em causa as coisas como se dispõem, falei do ponto de vista (inter)subjectivo e da interação, falei das estruturas, das técnicas no discurso e no pensamento que nos aprisionam. Tentei dizer que estamos impedidos de ser e de sentir e que mesmo que entendamos o tempo como linear que ele não é tão benéfico assim também. 

Tento também dizer que, apesar de todas estas percepções sobre nós, sobre o outro, ou sobre o meio, as manifestações do ser é o que somos, e que isso está nos olhos de quem olha.

Através da emancipação e da horizontalidade não só com fim, mas como processo, e como forma de ser ou estar, ninguém vale mais que ninguém, as diferenças não nos colocam em hierarquias.

Se as circunstâncias das coisas são impostas, é possível que entendamos que uma outra forma de ser ou estar, individual e coletiva, é possível. 

Acho que, através da transdisciplinaridade, a transconceptualidade, a transdimensionalidade, a significação (inter)subjectiva, questiono a própria razão do tempo, a sua compreensão e a sua percepção, ele não deve ser linear, ele não deve ser universal. E se questionamos o tempo, segundo as leis das física, quer na teoria das cordas, quer na teoria dos loops, questionamos a matéria. A forma como habitamos o tempo e o espaço (e, já agora, outras dimensões) é também uma compreensão individual e coletiva.

Não acho que ninguém defina alguém, quem se quiser definir tudo bem, eu respeitarei e direi que determinada pessoa define, ou se define, de determinada maneira, mas eu terei a minha compreensão pessoal, subjectiva, o meu entendimento sobre essa pessoa, sobre essa situação, que está para lá do campo da linguagem.

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22 de abril de 2025

Pedro Selas 

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Referências

(1) Frase original de Manuel António Pina 


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