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(Artigo) Sou o único? #NoStateSolution

Por Pedro Selas, em blog

Quem nos tem acompanhado neste blog, sabe que, nos textos escritos por mim e, enfim, embora sinta que parte do sentimento desses textos vai sendo relativamente partilhado pela comunidade, tanto esses textos, como este, apenas foram assinados por mim, e é sobre mim que devem incidir as críticas a esses mesmos textos. É só a mim que me vinculam, é a minha própria visão. Mas este blog é também um exercício de liberdade de cada um e não da servilidade.

Faço a ressalva neste texto, e não nos anteriores, porque sinto que na posição que manifesto face à questão palestiniana navego sozinho há bastante tempo, com particular incidência desde outubro de 2023.

Queria ainda antes de falar sobre a Palestina, em concreto, tecer um conjunto de considerações sobre como tenho visto a condução da governação desde que me lembro:

Portugal já havia entrado na CEE, mas em breve se introduziria o euro, o pão que eu comprava com uma vintena de escudos, as chicletes, as gomas ou os chupas, iam ser pagos com uma nova moeda. Com uma taxa de conversão de 1 euro para 200,482 escudos. Uns anos antes, grandes obras e empreendimentos na capital do império lusófono, a Expo 98 reabria as portas de Portugal ao mundo, com a promessa da ciência e do mar.

Em 2004, Durão Barroso (PSD) troca a cadeira de primeiro-ministro de Portugal pela cadeira de presidente da comissão da União Europeia. Uns anos mais tarde, Durão Barroso, já com o seu telefone carregado de contactos vai trabalhar para a Goldman Sachs, que viria a estar envolvida em escândalos na crise económica e financeira ocidental de 2008/2011.

Cá no burgo, a Durão Barroso sucede-se por nomeação, e não por eleição, Pedro Santana Lopes (PSD), em 2004, que fica lá poucos meses. O Presidente da República, Jorge Sampaio (PS), sem freio decidiu dissolver a assembleia e convocar eleições legislativas.

Chega José Sócrates (PS), com maioria absoluta, com uma série de reformas na administração pública, energias renováveis, tecnologia, enfim, uma influência keynesiana na europa, para o investimento. Portugal parece crescer (segundo as tais métricas económicas) nos primeiros anos.

Perda de influência em Portugal, perda de influência na União Europeia, crise norte-americana alastra-se pela União Europeia, e os países do sul da Europa refinanciam os países do centro e norte da europa, com forte impacto na vida das pessoas e das comunidades.

Era Pedro Passos Coelho (PSD), primeiro-ministro, em co-governação formal com a Troika, entidade que definia e fiscalizava as medidas implementadas nos países do sul da europa, enquanto os do centro e norte obtinham défices excessivos, violando as tais regras da UE, mas sem qualquer tipo de punição para esses. Co-governação essa também consentida e formalizada pelo Partido Socialista.

Em 2015, por insuficiência de possibilidade de governação garantida apenas pelo PS, o PSD+CDS têm mais votação que o PS, se ter extremado a posição face a Sócrates e ao PS, a Passos e à Troika, lá se consegue um acordo parlamentar à esquerda (PS+BE+PCP). 

Apesar de António Costa ter oferecido lugares governativos ao BE e ao PCP estes rejeitaram, ficando pelo acordo mínimo. Orçamentos de Estado que aprovaram quatro anos. A tal instabilidade política não veio, novas eleições sem serem antecipadas.

Depois de 2019, BE e PCP deixaram passar mais um ou outro Orçamento de Estado, e mandam cair o governo. Tínhamos Joacine Katar Moreira no parlamento, estreada no mesmo ano que André Ventura (CH). Em 2021, sai JKM, ao deputado único do partido Chega juntam-se mais 8 deputados.

Em 2024 do novo resultado eleitoral resulta uma maioria relativa para AD (PSD+CDS) e o Chega com 50 deputados.

Este artigo sai hoje, véspera de eleições legislativas.

O que vos quero dizer, é que já acompanho isto há muito tempo, já vi muita miséria moral e ética em muito lado, fui muita coisa e não sou coisa nenhuma. Já vi muitos escândalos, já vi muitas negociatas, sinto que a decadência é real, que vamos estando pior, que temos noção disso.

Essa tal esquerda teve o mundo nas mãos para o alterar, a partir de Portugal, penso que a desperdiça há 50 anos, eu vejo há 30.

Pensei que a coisa era mais a nível das elites, das elites políticas, da comunicação social, mesmo financeiras e económicas. O que é facto é que eu vi e vejo demasiados movimentos de base a darem tiros nos pés, paulatinamente, nos seus, nos de outros, enfim, uma outra miséria.

Vejo um tema como a habitação a ser apropriado por pessoas com algum conforto, há espera de apoios monetários, e quando as pessoas são despejadas ilegalmente nem apoio conseguem dar, convocando-as para as suas reuniões e para as suas manifestações.

Vi o movimento negro, feminista, anticapacistista, e esses tais partidos de esquerda a boicotarem, a perseguirem e a blasfemar Joacine Katar Moreira, teve que vir o Valete e o Deezy fazerem músicas para ver se alguém abria os olhos.

Para não falar sobre como a ação judicial é usada neste País, a TODOS os níveis, mas pense-se desde o escândalo na Casa Pia, passando por José Sócrates, e mesmo todos esses processos que são usados politicamente. É vergonhoso.

Queria também dizer que a esquerda governou por oito anos: o preço da habitação e a alimentação triplicaram, estamos com serviços públicos defraudados, uma economia assente no turismo, rentismo e trabalhos de merda, como falava David Graeber. E, quer dizer, era e é a tal esquerda, ou há outra?

Ou seja, não confio nos líderes de esquerda. E acho que se apropriam da ideia de esquerda para propria vantagem, política, comunitária, económica, de ego, enfim, nada de bom.

Pensei que os movimentos de base quisessem mais mudança, mas parecem-me querer atuar dentro de certas circunstâncias mais ou menos previsíveis, sem se possibilitarem a desenharem a criação.

Penso que a machadada final é quando temos movimentos anarquistas e comunistas a pedir o reconhecimento do estado da Palestina. Estamos a gastar esforços num reconhecimento técnico-jurídico. Ao mesmo tempo que se vai moldando a ideia que só é possível viver em organização de estados. Rejeito essa óptica ocidental sobre o resto do mundo e sobre este canto do mundo me sinto alguém que resiste, alguém que diz não. Este artigo é um desabafo, um deitar cá para fora. 

Preferia pegar no exemplo da Palestina, de uma zona sem fronteiras, com fortes comunidades locais que devia ser replicado para resto do mundo, e não os movimentos ocidentais andarem a pedir o reconhecimento de Estado. Vocês sabem, eu não sou neutro, nessa forma que o Estado se impõe todos os dias sou frontalmente contra, quem tem acompanhado aqui e ali, sabe que sim.

Sobre as eleições, votem em quem quiserem, para mim estão todos arruinar-nos, a forma em que se assenta todos estes pressupostos de estado, capital, correntes hegemónicas, que temos explorado no blog irão continuar arruinar-nos, inventar-se-ão desculpas, far-se-á declarações, tentarão, estes mesmos que têm ocupado os assentos da liderança, a passar a culpa, tentando-se manter nos assentos que lhes dão conforto, pelo menos económico, e sei que o usam, por vaidade e ego pessoal, talvez. Não sou contra votações, mas estas, em partidos, só me parecem ser a nossa legitimação para o estado das coisas. 

A cada um cada qual.


17 de maio de 2025

Pedro Selas


[Ver todas as publicações do autor]



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Ver outros artigos do autor: 
 - "Ainda não é o fim, nem o princípio do mundo, calma, é apenas um pouco tarde", de 22 de abril de 2025
 - "Os 50 anos entre o Golpe de Estado e a Constituição - Construção de Caminhos Revolucionários: Espaço, tempo e outras dimensões sem amos", de 1 de abril de 2025 

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Comentários

jose disse…
Gostaria de dizer ao Pedro que quando e se o PS for um partido de esquerda eu sou uma orquestra sinfónica. Depois a questão do estado palestino que o nosso governo desaprova. Ao Pedro parece não importar minimamente os efeitos de os países reconhecerem ou não o território como estado. A única questão que lhe parece interessar é destruir a noção de estado em si, mantra típico do anarquismo, e de modo nenhum o problema sionista-palestino. Não se preocupe, Pedro, o capitalismo selvagem está-lhe a fazer a vontade em toda a parte. As sequelas disso também parecem não lhe interessar. Ou seja, a realidade é que está sempre enganada, visto os princípios estarem sempre certos. Compreendo.
Pedro Selas disse…
Ao José,
Quem acompanha o blog tem percebido que estamos afastados das dicotomias e concomitancias que nos afastam, procurando trazer em comum o que realidades nos apresentadas como contraditórias, através da transdisciplinariedade, transdimensionalidade, transconceptualidade. Temos falado disso.
Neste artigo uso o termo "à esquerda", que do parlamento, pode ser verdade. Em 2015 o BE e PCP não foram para o governo porque não quiseram, preferindo apenas negociar e aprovar orçamentos com e do PS.
Sobre o reconhecimento de estados, pergunto se esse reconhecimento vale para a Iraque, para a Somália e muitos outros tidos pelas epistimologias sociológicas como o sul global. O reconhcimento de estados serve para suplantar a supermacia dos impérios.
Como alguém que é contra a violencia do estado, é a favor do colonialismo? Que definiu as fronteiras de África.
Quem está a fazer a vontade é essa esquerda bafienta, que finalmente começa a desocupar lugares, a ficar desconfortável, morte aos Amos!
Aconselho a leitura de outros textos, poemas e ensaios do blog, temos reels e tik toks nas redes sociais.
Anda para a nossa beira, meu bem.
Abaço