Por Alfredo Soares-Ferreira, em blog
Equacionar e debater a presidência é manifestamente um contributo para fortalecer o acto futuro que se apresenta ao Paı́s, no inı́cio do ano próximo. Mas é também uma forma de enriquecer a função que uma ou um cidadão vai desempenhar durante pelo menos cinco anos. Nessa medida, este e outros textos constituem, para além de uma forma de intervenção cidadã, um alerta contra a resignação que parece ter-se apoderado de uma parte significativa da sociedade portuguesa. É ainda uma forma de insubmissão assumida, imagem de indocilidade e inquietação. Por que nos quedamos assim, poderá ser uma das matérias em debate, mais que urgente, em tempos de aceitação tácita de verdades que não o são de forma alguma, mas que se querem impor sob a forma de crenças que apenas descrevem percepções subjectivas (a costumeira doxa), todavia contrastadas com o conhecimento objectivo.
Algumas ideias aparentemente simples, utilizadas aqui como temas possı́veis de análise e discussão colectiva, em pequenos e grandes grupos, sob a forma de tertúlia, um espaço de liberdade, de tradição cultural, artı́stica ou intelectual.
A primeira versa a literacia polı́tica e os baixos nı́veis detectados, sempre assinalados e quase nunca levados a sério, a tal ponto que condicionam a sempre falada participação. O facto de se falar em “democracia participativa” acrescenta muito pouco, ou mesmo nada, uma vez que a verdadeira democracia tem e deve ser participada. A “democracia” que grassa no Ocidente não passa de um eufemismo, reduz-se, para o cidadão, no acto fugaz e breve de depositar o voto na urna e fica por aı́, sem qualquer acrescento substantivo e sem possibilidade de controle do que quer que seja. Por essa e outras razões a abstenção ganha foros de maioria “qualificada”, representando a falência completa dos regimes, como se tem provado e continua a provar. Impõe-se, pois, restaurar a autonomia do cidadão, a capacidade livre e completa de acesso, participação e controle a quem tem direito, que só poderá ser consolidado com conhecimento, educação e formação cı́vicas e com o domı́nio das ferramentas necessárias.
A segunda pretende abordar a perspectiva do domı́nio e ocupação dos espaços públicos. A Cidade pertence ao Cidadão, assim se designa e como tal se define. O espaço público está hoje completamente privatizado, com a tendência crescente de transferir a sua gestão para empresas privadas. Quer nas concessões de parques, muitas vezes de forma danosa para o Estado, quer na transferência de responsabilidades pela manutenção e segurança, até às cobranças de taxas de utilização de ruas e praças. Nas grandes cidades, dentro ou fora do perı́metro urbano, florescem grandes superfı́cies comerciais, as catedrais de consumo, muitas vezes umas a seguir às outras, uma promiscuidade evidente e só possı́vel pela polı́tica criminosa das autarquias que cedem terrenos, em negócios sem qualquer transparência. Enquanto crescem esses templos que são os fabulosos centros comerciais, locais de falsos encontros, desaparecem, como por encanto, os cafés tradicionais de bairro, as livrarias. Não existem centros culturais, onde os cidadãos residentes possam confraternizar (um termo caı́do em desuso) e ter o seu espaço próprio, onde se possam reunir, ouvir música, ver cinema e teatro, ou simplesmente para lá estarem quando entendessem, por considerarem que é o “seu espaço”, organizado e gerido por elas, as pessoas reais, não os consumidores a quem se apela por quase tudo, menos para a sua felicidade.
Uma outra, a terceira, remete a forma como se vê hoje o trabalho e a organização dos trabalhadores. A consideração da importância desta ideia tem a ver, quer com a socialização do trabalho doméstico, quer com a forma como as questões relacionais dentro da empresa são geridas. O simples facto de o capitalismo, reformado e reformulado, rotular os trabalhadores de “colaboradores” diz da forma enviesada como o patronato quer envolver os trabalhadores na gestão da sua própria crise, eles que produzem os bens e que ficam rapidamente sem eles, uma vez que, apesar das “reformas”, o capitalismo continua a ser predador e sem piedade para quem trabalha.
Se há entidade que pode consubstanciar um propósito de mudança, porque é eleita por sufrágio directo, é a Presidência. Não é ela que legisla, nem que gere o Paı́s. Todavia, numa época em que o respeito pelo Cidadão está abaixo dos mı́nimos exigı́veis numa “democracia” gerida pelo capital e seus representantes, a presidência estaria no seu posto para defender aqueles que precisam de ser defendidos, uma definição levada ao limite do que deve fazer o Estado Social.
Há que tomar a devida nota em dois pormenores tremendamente importantes. Temos que fazer uma rapidamente uma “instalação” e uma outra em sentido contrário. Há que desinstalar o medo e impedir uma nova instalação. Ao mesmo tempo, há que instalar a ESPERANÇA. Esta instalação não deve ser feita em modo automático. Há que recorrer ao modo manual, com as configurações necessárias para que seja uma boa instalação. Há que escolher muito bem os parâmetros, os acessórios e, naturalmente o sistema operativo. A escolha adequada irá garantir o sucesso da instalação. Após a instalação convém manter o sistema em modo de expectativa para cuidar da natural e sempre exigida manutenção.
Assim se vai desenhando e projectando um Paı́s Sem Amos.
Alfredo Soares-Ferreira
12 Março 2025
Algumas ideias aparentemente simples, utilizadas aqui como temas possı́veis de análise e discussão colectiva, em pequenos e grandes grupos, sob a forma de tertúlia, um espaço de liberdade, de tradição cultural, artı́stica ou intelectual.
A primeira versa a literacia polı́tica e os baixos nı́veis detectados, sempre assinalados e quase nunca levados a sério, a tal ponto que condicionam a sempre falada participação. O facto de se falar em “democracia participativa” acrescenta muito pouco, ou mesmo nada, uma vez que a verdadeira democracia tem e deve ser participada. A “democracia” que grassa no Ocidente não passa de um eufemismo, reduz-se, para o cidadão, no acto fugaz e breve de depositar o voto na urna e fica por aı́, sem qualquer acrescento substantivo e sem possibilidade de controle do que quer que seja. Por essa e outras razões a abstenção ganha foros de maioria “qualificada”, representando a falência completa dos regimes, como se tem provado e continua a provar. Impõe-se, pois, restaurar a autonomia do cidadão, a capacidade livre e completa de acesso, participação e controle a quem tem direito, que só poderá ser consolidado com conhecimento, educação e formação cı́vicas e com o domı́nio das ferramentas necessárias.
A segunda pretende abordar a perspectiva do domı́nio e ocupação dos espaços públicos. A Cidade pertence ao Cidadão, assim se designa e como tal se define. O espaço público está hoje completamente privatizado, com a tendência crescente de transferir a sua gestão para empresas privadas. Quer nas concessões de parques, muitas vezes de forma danosa para o Estado, quer na transferência de responsabilidades pela manutenção e segurança, até às cobranças de taxas de utilização de ruas e praças. Nas grandes cidades, dentro ou fora do perı́metro urbano, florescem grandes superfı́cies comerciais, as catedrais de consumo, muitas vezes umas a seguir às outras, uma promiscuidade evidente e só possı́vel pela polı́tica criminosa das autarquias que cedem terrenos, em negócios sem qualquer transparência. Enquanto crescem esses templos que são os fabulosos centros comerciais, locais de falsos encontros, desaparecem, como por encanto, os cafés tradicionais de bairro, as livrarias. Não existem centros culturais, onde os cidadãos residentes possam confraternizar (um termo caı́do em desuso) e ter o seu espaço próprio, onde se possam reunir, ouvir música, ver cinema e teatro, ou simplesmente para lá estarem quando entendessem, por considerarem que é o “seu espaço”, organizado e gerido por elas, as pessoas reais, não os consumidores a quem se apela por quase tudo, menos para a sua felicidade.
Uma outra, a terceira, remete a forma como se vê hoje o trabalho e a organização dos trabalhadores. A consideração da importância desta ideia tem a ver, quer com a socialização do trabalho doméstico, quer com a forma como as questões relacionais dentro da empresa são geridas. O simples facto de o capitalismo, reformado e reformulado, rotular os trabalhadores de “colaboradores” diz da forma enviesada como o patronato quer envolver os trabalhadores na gestão da sua própria crise, eles que produzem os bens e que ficam rapidamente sem eles, uma vez que, apesar das “reformas”, o capitalismo continua a ser predador e sem piedade para quem trabalha.
Se há entidade que pode consubstanciar um propósito de mudança, porque é eleita por sufrágio directo, é a Presidência. Não é ela que legisla, nem que gere o Paı́s. Todavia, numa época em que o respeito pelo Cidadão está abaixo dos mı́nimos exigı́veis numa “democracia” gerida pelo capital e seus representantes, a presidência estaria no seu posto para defender aqueles que precisam de ser defendidos, uma definição levada ao limite do que deve fazer o Estado Social.
Há que tomar a devida nota em dois pormenores tremendamente importantes. Temos que fazer uma rapidamente uma “instalação” e uma outra em sentido contrário. Há que desinstalar o medo e impedir uma nova instalação. Ao mesmo tempo, há que instalar a ESPERANÇA. Esta instalação não deve ser feita em modo automático. Há que recorrer ao modo manual, com as configurações necessárias para que seja uma boa instalação. Há que escolher muito bem os parâmetros, os acessórios e, naturalmente o sistema operativo. A escolha adequada irá garantir o sucesso da instalação. Após a instalação convém manter o sistema em modo de expectativa para cuidar da natural e sempre exigida manutenção.
Assim se vai desenhando e projectando um Paı́s Sem Amos.
Alfredo Soares-Ferreira
12 Março 2025
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