Por Alfredo Soares-Ferreira, em blog
Uma das questões interessantes para analisar uma sociedade igualitária é a forma como lida (ou lidará) com o paradigma tecnológico. A problemática da Ciência e Tecnologia reporta, na sua essência, a uma inter-relação entre o Cidadão e o Conhecimento, que deverá ser favorável ao primeiro, uma vez que todo o conhecimento é fruto do trabalho do pensamento e esforço humanos. Na emergência de uma era da técnica anunciada pela burocracia privada e estatal, poderemos questionarmo-nos sobre algumas premissas como por exemplo a subjugação do ser pensante em relação à máquina que ele mesmo produziu. Daí ser vulgar admitir um determinado produto tecnológico como maléfico, apenas porque é uma inovação e contraria o estatuto conservador instalado. Uma pretendida sociedade sem amos, deverá ser preparada com base no conhecimento acumulado que consiga ser um suporte de vida mais fácil, com menos horas e com menos trabalho e com toda a ciência e tecnologia devidamente orientada para o bem comum e para a emancipação colectiva. Ou seja, mais um “NÃO” ao medo da tecnologia e obviamente um “SIM” à esperança num mundo onde a ciência e a tecnologia estejam nas mãos de quem produz e libertas das elites opressoras e das estruturas do poder burguês.
Os trabalhos e pesquisas conhecidas do filósofo alemão Jürgen Habermas são imprescindíveis para compreender a relação entre ciência, tecnologia e sociedade, com base na autonomia. Na sua obra de 1968, “Técnica e Ciência como Ideologia”, Habermas afirma claramente que a ciência e a tecnologia se tornaram formas de legitimação do poder, substituindo as tradições e religiões, enfeudadas como preconceitos, por uma espécie de inefável neutralidade técnica. E, ao mesmo tempo, fala da tendência tecnocrática como potenciadora da eliminação do debate democrático sobre finalidades sociais, que passam a ser vista como "meios eficientes". A grande contribuição de Habermas reside na visão de uma ciência vinculada a um processo democrático de deliberação e à sua utilização em forma de discussão pública e não apenas decidida por especialistas. Combateu sempre a pretensa neutralidade da técnica, influenciando debates sobre ética na tecnologia e crítica ao neoliberalismo tecnocrático, defendendo uma abordagem da ciência e tecnologia, onde toda a inovação seja discutida e problematizada, nas vertentes políticas e sociais. Muito antes, recuando no tempo que conhecemos, já Marx criticava a neutralidade da ciência. Nos “Manuscritos de 1861-1863” (para a crítica da economia política) afirmava que a ciência, sob o capitalismo, é reduzida a um mero meio de enriquecimento e que as descobertas científicas são exploradas pelo capital para gerar lucro, não para emancipar as sociedades. Marx falou ainda na possibilidade de uma ciência autónoma, numa sociedade pós-capitalista, onde a ciência poderia ser reorientada para atender às necessidades humanas, exigindo-se para tal a apropriação colectiva das forças produtivas, incluindo o conhecimento tecnológico. No ano de 1970, Amílcar Cabral lança "A Arma da Teoria", obra onde se discute a necessidade de uma ciência e tecnologia vinculadas às realidades locais, fora da dominação colonial. O mesmo teria feito, em 1965, o filósofo e revolucionário ganês Kwame Nkrumah, na sua conhecida obra “Neocolonialism: The Last Stage of Imperialism", onde ataca o controle estrangeiro sobre a tecnologia, defende uma espécie de autossuficiência africana.
Hoje em dia existe uma percepção negativa dos avanços da ciência e da tecnologia, perfeitamente justificada pelo uso indevido da inovação tecnológica. Particularmente no que reporta a incorrectas utilizações da Inteligência Artificial (IA) e ao refinamento enviesado na produção de armas de guerra cada vez mais mortíferas. O resultado evidente é o cidadão ter medo da IA, esquecendo, por exemplo, a importância da sua utilização na medicina e na melhoria da qualidade de vida que a sua aplicabilidade pode conferir ao cidadão. Na verdade, o que devia estar permanentemente em debate é o controle público da inovação e a sua orientação para a produção de meios eficazes para a melhoria da qualidade de vida. Tal controle deveria ser impiedoso para com o desvio de capitais, as fraudes económicas e financeiras e o tratamento indevido de dados.
Equaciona-se o papel da ciência, da técnica e das tecnologias, para projectar uma sociedade sem elites opressivas, despejada de burocratas e orientada para a emancipação colectiva. Para uma ciência descolonizada e democrática sem a dominação de interesses corporativos e onde a pesquisa e investigação científicas sejam supervisionadas por fóruns comunitários e assembleias populares, salvaguardando que o conhecimento tradicional possa ser valorizado e não apropriado por patentes. Para uma ciência que caminhe para o fim da divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual, que possa juntar os cientistas aos trabalhadores da cidade e do campo e aos artistas, sem hierarquias opressivas e com financiamento colectivo, sem dependência de bancos e corporações. Para uma tecnologia dirigida para a auto-gestão, com ferramentas digitais abertas e redes descentralizadas em que a IA sirva para reduzir o trabalho alienado e não para desempregar pessoas.
O aspecto particular do tratamento de dados deveria ser completamente revertido, para impedir que sejam controlados e capturados por empresas e estados, devendo servir a autonomia colectiva e nunca a exploração capitalista. Os dados devem ser tidos como bem comum e nunca como uma propriedade, devendo os bancos de dados ser geridos por comunidades de cidadãos, em assembleias regionais ou locais.
O não ao medo caminha paralelo com o sim à esperança. É, sem sombra de qualquer dúvida, um caminho revolucionário, onde se projectam e desenham percursos como o fim da vigilância capitalista, a utilização da IA para prever epidemias ou optimizar colheitas ou a substituição das plataformas monopolistas por redes federadas, com protocolos de rede.
O País Sem Amos é uma construção colectiva que começa na recusa da submissão e da dominação. Uma construção que pode ser penosa, que nunca termina e que, por isso, é a construção necessária.
Alfredo Soares-Ferreira[ver todas as publicações do autor]

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